quinta-feira, 29 de outubro de 2009

David Fonseca numa intimidade acústica

Normalidade não é característica que assente bem a David Fonseca. O artista nacional que, cantando em inglês, mais vende no nosso país, tem sido acompanhado ao longo da sua carreira por um conjunto de excentricidades que o colocam num lugar especial no panorama musical português: realiza alguns dos seus vídeos, é fã e habitual utilizador das redes sociais Twitter e Facebook, vestiu-se de astronauta na sua última tour, declama a letra R de forma ruidosamente pesada e dá pequenos concertos nos locais mais inesperados. Na segunda-feira, dia 26, percorreu Lisboa com novas músicas no bolso e encantou. Agora, quando pouco falta para o lançamento oficial do novo albúm, Between Waves, David Fonseca corre Portugal de lés a lés com pequenos showcases, de forma a promover este seu último trabalho, embora de uma forma mais leve e intimista. Ontem, dia 28, foi a vez da Figueira da Foz.

O Pequeno Auditório do Centro de Artes e Espectáculos não estava cheio à hora prevista de início do concerto. Apenas pouco mais de metade dos lugares estavam ocupados, mas não se viam rostos de enfado e contrariedade que por vezes encontramos em grandes espetáculos. Em vez disso, só ligeiros sorrisos de expectativa e um burburinho no ar. No palco, apenas uma cadeira, uma guitarra acústica, uma pandeireta e um ecrã com a capa do novo álbum. Sem espaço para banda de apoio, David Fonseca prometia, mesmo ainda antes de estar em palco, algo de diferente das suas grandes produções ao vivo. Mal as luzes se apagaram, a figura alta e estreita do cantor atravessou o palco, com as já típicas All Star pretas e o blazer negro. Enquanto nos dava as boas vindas de uma forma bem-humorada, brincava nervosamente com as cordas da guitarra, até apresentar a primeira música da noite, Owner of Her Heart, um título de difícil pronunciação até mesmo para o David, que confessou vários engasgos com o nome da canção. Para o acompanhar, o ecrã fragmentou-se em pequenos compartimentos onde vários Davids Fonsecas tocavam variados instrumentos, como o piano, a bateria ou o xilofone, havendo ainda espaço para um quarteto de cordas. Depressa se passou para It’s Just A Dream, uma canção com uma estrutura diferente daquela que o artista costuma usar, inspirado em artistas como os Beatles ou Elvis Presley. Sem refrão, sem pontes, sem obedecer aos cânones da música pop actual, esta pequena anarquia estrutural revelou-se bem positiva, compondo uma das melhores músicas da noite.
Apesar da ausência da panóplia (ele adora esta palavra) habitual dos espectáculos ao vivo, o humor esteve bem mais presente; os espaços entre músicas mais se assemelhavam a stand-up comedy, com descrições hilariantes do seu processo de criação. Em jeito de introdução a Walk Away When You’re Winning, David explicou o porquê de nomes tão grandes para as suas músicas, assim como o uso de 4 para “for”, U para “you” e II no final: burocracias da Sociedade Portuguesa de Autores. No entanto, há razões para sorrir: “daqui a 500 anos, quando já estiver morto e enterrado, ninguém vai poder usar o título My Friends numa música sua. Esse título é meu, nem pensar!”. Esta boa disposição caiu bem no meio das músicas de um tom mais melancólico do que em outros registos, e foi recebida por um público bastante galhofeiro (talvez até demais), que exterminou toda a formalidade que ainda podia existir no showcase. Depois de mais uma música bem melódica e em que a sua poderosa voz brilhou fulgente, David Fonseca anuncia a última canção, com mais alguns efeitos especiais: U Know Who I Am usou a guitarra, a sua banda de Davids no ecrã, uma estranha bateria só de pé, e as vozes do público, que colaborava encantado noutra canção que encaixava perfeitamente no ambiente de uma amena noite de Outubro.
Assim se despediu, mas as luzes não se acenderam. Quem diria que também um showcase tem encore? David Fonseca voltou, colou a pandeireta ao pé com uma potente fita cola e interpretou o seu mais recente single, que já passa nas rádios nacionais. A Cry 4 Love soou ainda melhor num registo mais acústico, mas que não comprometeu a qualidade da versão original. Aplausos feitos, ficou a promessa feita de um novo álbum com muita qualidade e uma última faixa descrita como “kizombada psicadélica“. E fora do auditório, havia mais David Fonseca.
Como se de um velho amigo se tratasse, veio ter com o pequeno público que o aguardava junto à sua banquinha de merchandising, perguntar como tinha corrido, se tinham gostado, distribuindo autógrafos, sorrisos e piadas. E em exclusivo para o Espalha Factos e para o blog Para Acabar de Vez Com a Cultura (ou seja, em conversa comigo) declarou a sua paixão pelos espalhafatosos anos 80 e a sua adoração por artistas como Sabrina ou Samantha Fox. “Gosto de música“, disse-me, confirmando o seu vastíssimo leque de gostos musicais e negando-se a adoptar um só estilo. Além disso, houve ainda tempo na nossa curta conversa para conselhos musicais (”Não vens ao meu concerto porque no dia anterior tens Muse no Atlântico? Epá, aproveita. Muse é muito bom e ao vivo deve ser um espectáculo!”) e para algumas memórias de adolescente (”Quando trabalhava na rádio, gravava da TV os vídeos das canções e passava o som do VHS para cassetes, porque só assim é que nos chegava música. Nessa altura também vivia numa caverna.“)
O que fica deste showcase? Um forte desejo de ouvir Between Waves, a constatação da simpatia e humildade do artista e a certeza de que a normalidade assenta mesmo muito mal a David Fonseca.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

The Resistance - é inútil resistir

Já lá vão dez anos depois de Showbiz, albúm inaugural da gloriosa carreira dos Muse. E quem diria que a banda acusada de "copiar" os Radiohead seria capaz de lançar algo tão...diferente. A verdade é que os Muse se têm reinventado em todos os albúms, com uma tendência para se amenizarem a cada registo que gravam. As diferenças entre a pura e dura Plug In Baby de 2001 e Supermassive Black Hole de 2006 (música que ganhou outra fama depois da presença no filme teenager Crepúsculo) são gritantes. Mas quando o mundo esperava com algum medo pelo novo elemento da discografia da banda, os Muse surpreendem. E não se pode dizer que seja pela negativa.


A faixa inicial, e também primeiro single, não nos traz nada de novo. Uprising transpira a obsessão de Bellamy por conspirações mundiais num embrulho demasiado igual ao hino de Black Holes and Revelations, Knights Of Cydonia. Segue-se Resistance que já se encontra mais no espírito do disco: o piano inicial é delicioso e os coros, poderosíssimos. Aparentemente, é a história de amor do livro 1984 que se ouve na voz de Matt Bellamy, mas quer se perceba, quer não, algumas das frases da letra já habitam nicknames em várias redes sociais. Undisclosed Desires pode muito bem ser o maior sucesso radiofónico deste albúm, se for bem utilizada: de uma sonoridade mais pop com umas cordas a dar uma ajuda, é bem capaz de ser a música mais leve que os Muse já compuseram. Nem a letra (romântica, e ponto final) nem a voz de Bellamy, fragmentada e grave, dão um tom épico à canção; mas a sua simplicidade é tão cativante que não passa despercebida no conjunto de faixas de The Resistance.

E da simplicidade passamos à complexidade excessiva de United States Of Eurasia. A melhor canção do albúm, a Bohemian Rhaposdy do século XXI. É impossível não encontrar semelhanças com os Queen: com coros a lembrarem os êxitos dos anos 70 de Freddie Mercury e companhia, uma guitarra que nos traz aos ouvidos os singulares solos de Brian May, um piano mais que presente...esta música é o rosto do novo albúm, uma rapsódia sobre uma inacreditável ocupação americana dos territórios de Portugal ao Japão. A ela segue-se Chopin. Collateral Damage é uma adaptação de um dos mais famosos Nocturnos do compositor francês, que termina com os sons de um bombardeamento aéreo.

Guiding Light anima um pouco o ambiente. Com o melhor solo de guitarra de todo o albúm (mais uma vez a lembrar o dono da Red Special), surge langorosa e suplicante mas não demasiado negra. E onde anda o rock? Poderoso como em Hysteria ou Map Of The Problematique , só surge na sexta faixa, com Unnatural Selection, que peca pela longa duração (quase sete minutos) e por ser um tanto repetitiva. Para quem não espera surpresas deste novo albúm, basta ouvir esta canção e fica satisfeito. Com uma letra mais virada para a religião, não abandona a linha condutora de The Resistance, apesar de surgir mais violenta. Também com um solo para recordar. Na passagem de Unnatural Selection para MK Ultra, perde-se muito pouca energia. Mais uma canção de revolta, desta vez a roubar o nome a um projecto de controlo mental criado pela CIA. Um tanto efémera, mas consegue criar um bom ambiente para o que se segue: a divertida e sensual I Belong To You/Mon Coeur S'ouvre à ta Voix. Com uma letra um tanto obscura, a banda brinca com o piano para dar uma roupagem muito leve à penúltima canção do albúm. Confirmada para entrar no próximo filme da saga Crepúsculo (antes esta que outra qualquer), ainda vai buscar uma ária da ópera Sansão e Dalila, na qual Matt Bellamy canta num perfeito francês.

Se o albúm aqui terminasse, não ficaria mais do que uma desilusão, um vazio nas ânsias dos fãs a quem foi prometido algo de grandioso. Felizmente, há ainda 13 minutos de música e que conseguem elevar The Resistance a um nível superior. Exogenesis divide-se em 3 partes (não fosse o tamanho da música assustar os ouvintes) que descrevem o abandono do nosso planeta numa melodia comovente. O piano soa belíssimo, a voz de Bellamy ecoa divinalmente e a orquestra faz um incrível trabalho. Um final perfeito.

Se os Muse são os novos Queen, então The Resistance é a jóia da coroa. Provavelmente é o melhor disco da banda até ao momento pois se revela completo e sem grandes oscilações de qualidade. Com uma conceptualidade um pouco difusa, os Muse podem ter prometido mais do que puderam cumprir, dado o hype gerado à volta deste novo albúm. Dos haters, eles não se livram e dificilmente conseguirão conquistar novos públicos, mas The Resistance é motivo mais do que suficiente para garantir presença no Pavilhão Atlântico no dia 29 de Novembro.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Espalha Factos

Irá parecer estranho que alguém que diz estar sempre ocupado e não ter tempo para postar no blog (para quem ainda não percebeu, falo de mim próprio) venha anunciar, com pompa e circunstância, um novo projecto. Mas é isso que vai acontecer. Aliás, está a acontecer.

Venho por este singelo meio anunciar não só a minha parceria mas também a existência de um novo projecto, o Espalha Factos, um site que conta com a colaboração de vários jovens de todo o país e que pretende informar e elucidar o público sobre temas como o Cinema, a Música, a Rádio e a Televisão, com o rigor e profissionalismo que um projecto com este ordena.

Passem por lá, http://www.espalha-factos.com/, e apreciem. O link passará a estar aqui na barra lateral. Também nos podem seguir no Twitter em http://twitter.com/EspalhaFactos .

E um resto de boa semana.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Tarantino, um glorioso sacana


Que a boa-nova seja pregada aos sete ventos: Sacanas Sem Lei é o melhor filme do ano.


Mas isto não deve ser surpresa para ninguém. Vindo de quem vem, só um grandioso filme era esperado, e Quentin Tarantino trata de não desiludir - na minha opinião, esta é a sua grande obra. Sou suspeito: não reconheço nada de genial em Pulp Fiction e ainda me faltam grandes clássicos para completar a sua filmografia, mas Sacanas Sem Lei (magnífica tradução de Inglorious Basterds) habilita-se a estar no restrito grupo de filmes da minha vida.
Comecemos pelo tema: Segunda Guerra Mundial. Por si só, já vale a pena o dinheiro do bilhete. Mas só de imaginarmos a mão de Tarantino a tocar num assunto tão delicado, que foi alvo de Oscares da Academia nas mais diversas categorias, a excitação é tal que é impossível combater o impulso de ir a correr para o cinema. E ainda por cima com a promessa de vermos um massacre de nazis sob as mãos de Brad Pitt e companhia. Porque afinal, é por isso que vamos ver Tarantino, porque temos a promessa vincada de sangue e violência.
No entanto, quem espera a chafurdice de Kill Bill Vol. 1, por exemplo, pode sair da sala ligeiramente desapontado. Não é que não haja sangue e carne e violência, porque há tudo isto q.b.. Só que neste Sacanas Sem Lei, o requinte, a excelência chegam-nos de outros lados. O elenco: Christoph Waltz é simplesmente a alma do filme, encarnando um personagem genial, duma espécie que vai rareando, que consegue mexer no nosso íntimo e provocar violentas sensações. Mélanie Laurent, lindíssima, é dona de uma beleza frágil e que esconde na cor titónica dos seus olhos um desconcertante fatalismo. É também uma grande revelação e um talento a seguir de perto. Brad Pitt é, resumidamente, o bobo da corte, está ali para fazer rir o público. E consegue-o com algum aproveitamento.
Mas tecer elogios a este filme e não falar do argumento seria um crime hediondo, comparável às barbaridades cometidas na época que o filme retrata. Tarantino esmerou-se e serve-nos uma estória deliciosa: deleitemo-nos com os diálogos riquíssimos, personagens fantásticas e um retrato dos anos 40 absolutamente inacreditável. Tudo isto acompanhado de uma realização primorosa e dos toques "à lá Tarantino" que cunham os seus filmes. Destaque para a sequência final no cinema parisiense, qualquer coisa de abismal que me deixou ficar de boca aberta, literalmente.
Não esquecendo também a banda-sonora - que segue os padrões a que Tarantino nos habituou - importa também referir um aspecto bastante ambíguo: o arrojo do realizador em mexer com personagens e cenas históricas sem medo de represálias de grupos que idolatram certos personagens do filme. E mais não digo, que não quero ser spoiler.
Concluindo, é um excelente filme que merece ser visto numa sala de cinema decente, não porque a apreciação do filme seja menor se for visto no PC ou no leitor que lê DVD's piratas lá de casa, mas porque o Tarantino, apesar de já ter os bolsos cheios, merece o dinheiro por ter feito esta obra-prima.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Mais cinema!

Bem, desde o último post que escrevi já lá vai um tempinho, mas foi bem aproveitado. Trago-vos reviews não de um, não de dois, não de três mas de sete filmes! Fantástico, e para amanhã está prometida a review do mais recente filme de Quentin Tarantino, Sacanas Sem Lei.

Matou

Filme do génio alemão Fritz Lang, responsável também pelo magistral Metropolis. Este filme falado (vindo do longínquo ano de 1931) acaba por ser ligeiramente inferior à obra-prima de ficção científica de 1927, apesar de uma excelente realização e de algumas boas interpretações. O argumento, sobre uma caça ao infanticida que aterroriza as ruas de Berlim, cria suspense e consegue ainda tocar em assuntos delicados, como a luta Bem vs Mal e a legitimidade das penas judiciais, mas não deixa de ser um pouco chocho. Ainda assim, não mancha a grandiosidade desta obra do cinema alemão.


O Sétimo Selo
Ver um filme sobre a Morte, Deus, a Peste Negra e a Idade Média não será a escolha mais sensata para ocupar uma tarde tórrida de Verão, mas a visualisação deste filme do sueco Ingmar Bergman acabou por revelar-se de mais fácil digestão do que aparentava. O regresso de um cavaleiro das Cruzadas e o seu encontro com a Morte (personificada) são apenas o mote para um filme profundamente depressivo, cuja angústia provém não só do preto-e-branco em que foi filmado mas também das questões de fé levantadas pelos vários personagens que povoam o filme. Mas de maior relevo é a forma exímia com que a Bergman retrata a Idade Média, com todos os pormenores que fazem dela umas das épocas mais negras na História da Humanidade. Não é uma obra-prima, mas é um filme que dá um ligeiro murro no estômago áqueles fiés acérrimos da doutrinha católica.

Trainspotting
Poucos devem ser os filmes que retratam o mundo da droga com a ligeireza com que Trainspotting o faz. Não que o eufemize, não é esse o caso. Mas Danny Boyle (o mesmo realizador do aclamado pelas hostes Quem Quer Ser Bilionário) pega no livro homónimo de Irvine Welsh e pinta-o com muito humor e sarcasmo, ironizando a sociedade britânica dos anos 90. Sem ter medo de chocar com palavrões, cenas de sexo ou de consumo de drogas bastante feias, Trainspotting tem uma vantagem que muitos outros não conseguem atingir: toca-nos ao coração, seja graças à belíssima banda-sonora, ao desempenho de Ewan McGregor ou à mensagem que faz passar através de mil e um truques geniais. Não é tão bom como se diz por aí, mas vê-se muito bem.

As Horas
Há filmes em que o elenco é tudo. N'As Horas, é quase tudo. Nicole Kidman, Julianne Moore, Meryl Streep, Ed Harris e o pequeno Jack Rovello são os principais responsáveis pela excelência deste filme. Passado em três épocas diferentes e debruçando-se sobre a vida de três mulheres numa gigantesca náusea, As Horas é um filme completo, inteligente e ainda assim acessível ao grande público. Kidman, vencedora de um Oscar de Melhor Actriz pela sua intepretação, está irreconhecível como uma triste Virginia Woolf; Julianne Moore, que foi nomeada para Melhor Actriz Secundária, é perfeita na sua melancolia de prisioneira do pesadelo americano; Meryl Streep, encarnação de Mrs. Dalloway (personagem de Woolf), é o retrato de uma mulher cheia de fantasmas e que lida com um difícil Ed Harris, também nomeado, como escritor bissexual a morrer de SIDA. Tudo isto se conjuga idilicamente, resultando num grandioso filme que é bem superior ao vencedor da noite dos Oscares de 2003, Chicago.

Fala Com Ela
Eis o meu primeiro Almodovar. Muito se fala da genialidade deste filme, mas não se revelou como algo de muito especial. O argumento, sobre duas mulheres em coma e suas respectivas companhias, fica muito aquém do esperado e poderia ter sido muito melhor aproveitado. Ainda assim, é algo muito fora do comum para os padrões europeus vigentes em 2002. É um bom esforço, mas não foi com este que Almodovar me convenceu.


Inimigos Públicos
Bem, que grande seca. Desde já, aprecio pouco o tipo de realização em que a câmara anda a balançar de um lado para o outro, a não ser em filmes como o Cloverfield e Blair Witch Project, e o realizador Michael Mann faz um esforço para que esses solavancos sejam abundantes, mesmo em cena paradas. Johnny Depp está igual a si próprio, o que não é mau, mas bom também não é. Se já me tinha desiludido com o Swenney Todd, este Public Enemies não veio ajudar. Christian Bale parece que só soube fazer um bom filme na vida (American Psycho). De resto, tem-se mostrado como um novo Keanu Reeves, sem expressão, sem sentimento, sem presença. O melhor do filme é mesmo Marion Cotillard, não só porque é deliciosamente bonita mas porque oferece o melhor desempenho do elenco. Não conheço bem a história do Dillinger mas aquela faceta de Robin Hood devesse ser melhor explorada. Enfim, são duas horas e vinte muito fastidiosas e que não merecem tanta atenção como o filme anda a ter.

Up - Altamente!
O Up? Altamente! (piada seca). Mas não é que a Disney voltou a surpreender? Depois de um belíssimo WALL-E, chega-nos este delicioso filme, com um argumento menos maduro do que o da história dos robots. Ainda assim, apesar de ter um humor mais imediato para as crianças (que não vão deixar de ser o público alvo dos filmes de animação), Up ainda consegue comover - fiquei feliz por saber que não fui o único com uma lágrima ao canto do olho em determinadas cenas do filme. Animação de qualidade, humor, comoção, uma banda sonora impressionante...pode pedir-se mais? Pode. Mas Up vai ser sem dúvida um marco no cinema "de bonecos".

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Cinema Paraíso

Bem, já faz um tempinho que não publico aqui nada!

Não quer isso dizer que me tenha dedicado apenas ao ócio e tenha posto a cultura de parte, nada disso. De facto, têm sido bastantes os filmes que tenho visto, e vou tentar dissertar um bocadinho sobre todos eles neste espaço.

Intimidade
Filme realizado por mãos francesas mas passado e falado em terras e língua de sua magestade. Um filme muito cru, muito europeu, a mostrar o lado negro das relações humanas. Com sexo q.b. (contém cenas de sexo não simuladas), não deverá ser considerado como um filme erótico ou pornográfico, mas sim um poderoso drama que, apesar de ser mais vazio do que o seu argumento pede, fica muito bem assente sobre grandes interpretações.

Irreversível
Se Intimidade é um filme cru, este Irreversível é completamente tártaro. Filme francês, falado e rodado em França, terá sido dos filmes mais impressionantes que já vi. Realizado ao estilo Memento (de trás para a frente), Irreversível são 97 minutos de uma agonia inigualável, desde os créditos iniciais até à última cena. Apesar de ser incomensuravelmente nojento, é de um rigoroso realismo, o que poderá dar ainda mais a volta ao estômago do espectador. Esmagamentos cranianos, masoquismos homossexuais e uma cena de violação que dura nove minutos fazem parte desta obra a que, quer se goste ou se deteste, não se consegue ficar indiferente. Monica Belluci e Vincent Cassel são brilhantes.

De Tanto Bater O Meu Coração Parou
Vulgarmente considerado como o grande filme francês da década, De Tanto Bater O Meu Coração Parou não consegue cumprir as suas promessas de grande obra do cinema, mostrando ser um drama com pouca substância e com uma linha condutora perigosamente difusa. Apesar de uma boa interpretação do jovem Roman Duris, este parece-me um filme sobrevalorizado, apesar de uma realização competente e de uma banda sonora ternurenta. Ainda assim, não se justificam as dez nomeações e as oito vitórias nos Césares de 2005.

No Limite da Ilusão
Um filme com Ewan MGregor e Hugh Jackman só poderá ser muito bom. Not. No Limite da Ilusão parte de uma boa premissa, mas embrulha-se numa confusão tal que acaba por perder grande parte do seu sentido e interesse. Perde demasiado tempo em seduzir o espectador com cenas de sexo elegantemente sensuais e não apresenta um suporte para um final decepcionante. Ainda assim, seria bem melhor se no lugar de Michelle Williams estivesse Scarlet Johansson, por exemplo. Aí, a minha opinião era capaz de mudar. Bastante.

Gran Torino
E quando se pensa que o cinema actual já não é capaz de nos dar verdadeiras obras-primas, eis que chega Gran Torino. Último filme de Clint Eastwood, em que é realizador, produtor e protagonista, termina com chave de ouro uma carreira repleta de êxitos. Comovente, divertido e crítico, Gran Torino é um incrível desfilar de talento: Eastwood é irrepreensível, o argumento é brilhante, a realização idem. Chocante é a sua ausência de nomeações para os Oscares, onde Quem Quer Ser Bilionário pareceria um filme de crianças. Ainda assim, é um dos grandes filmes desta década e é com ele que se pode perpetuar a ideia de que o cinema é algo de verdadeiramente maravilhoso.

Fargo
Vindo directamente do ano de 1996, esta pérola dos irmãos Cohen é um filme muito próprio, não podendo ser categorizado num estilo apenas. Tanto faz rir, como nos deixa atónitos, como nos deixa a pensar. Mas a principal reacção ao ver este filme é a de um deslumbramento perante os talentos de William H. Macy, Franes McDormand e Steve Buscemi, um trio de actores absolutamente fantástico. O Oscar recebido por Melhor Argumento Original não podia estar melhor entregue: Fargo é uma daquelas histórias impossíveis de acreditar, mas ainda assim com uma réstea de plausibilidade que não nos deixa indiferentes.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Super Bock Super Rock Lisboa - Episódio II

(continuação)

A vantagem de ver um concerto em cima de uma pizza

A montagem de palco dos The Killers quase que conseguiu superar o tempo de espera pela Duffy. O público fervia de excitação enquanto que os técnicos de palco colocavam pianos espelhados, plantinhas em vasos, um sintetizador com a forma de uma luminosa letra K, tudo muito Day&Age. Medo. Mas os alinhamentos de outros concertos disponibilizados na Internet descansavam os que, como eu, temiam um concerto baseado neste último albúm. Pouco tempo depois, os The Killers iriam cumprir esses alinhamentos e aliviar muitos nervos.
Numa completa escuridão e sob um burburinho gigantesco, a banda de Las Vegas entrou triunfante no palco, perante um explosivo entusiasmo do estádio do Restelo. Sem mais perdas de tempo, Human abre o concerto. Por muito que se desgoste deste último trabalho da banda de Brandon Flowers, Human, à semelhança das músicas de Duffy, é uma música inevitável pela sua massiva transmissão radiofónica. Por isso, não é difícil explicar a alegria e os saltos na interpretação de um dos singles mais fraquinhos da curta história dos The Killers. A este hit seguiu-se outra canção de Day&Age, This Is Your Life. Ainda que com menos animação, esta música não fez esmorecer o público, que transformava a zona perto da grade no Inferno na Terra. Depois desta dupla introdução do novo albúm e de umas palavras em português, um dos momentos da noite inicia-se num completo frenesim: empurrões, gritos, braços no ar antecedem a Somebody Told Me, a verdadeira culpada pelas minhas dores musculares que ainda dois dias depois me dão trabalho. A representar Hot Fuss em grande estilo, a provavelmente mais popular canção dos americanos fez o Restelo capitular perante o gigantesco poder da banda.
E por razões desconhecidas, as músicas de Sam's Town (o melhor albúm da banda, na minha opinião) não tiveram o impacto esperado no público. Alguns saltaram e cantaram com Brandon, que se ia balançando pelo palco já depois de tirar as plumas do seu casaco, mas For Reasons Unknown (um hino!) passou ao lado de muita gente. Pelo contrário, desenxabida The World We Live In colheu cânticos e saltinhos de quase toda a gente. Ficava provado que Day&Age foi o albúm que aproximou os The Killers do grande público e que levou muitas pessoas a irem ao Restelo naquela noite.
Enquanto tocava outra canção do registo mais recente da discografia da banda, Joy Ride, apercebi-me que graças aos empurrões e saltos, me situava agora sobre uma superfície esponjosa e mole. Vomitado? É bem provável, e foi a hipótese mais aceite pelas minhas companhias. Enquanto o povo lisboeta não se mexia muito, tentei ver com a luz do telemóvel o que se encontrava debaixo dos meus pés: era uma pizza. Quase inteira, virada para baixo. Não pude deixar de escapar um pensamento profundo: "ESTOU A VER THE KILLERS EM CIMA DE UMA PIZZA, A MINHA VIDA GANHOU SENTIDO". Entretanto, Duffy e uma das suas coristas sentavam-se junto ao palco a ver o espetáculo que não deram e a recepção que não tiveram, mas sem tirar o sorriso dos lábios.
Pelo palco foram passando Shadowplay (cover dos Joy Division), Bling (Confession of a King), Smile Like You Mean It, mas o público, apesar de ainda extasiado por ter à frente uma das melhores bandas no panorama musical actual, não reagia da forma que as canções pediam. Por outro lado, reagiu exageradamente a um single que não merece metade do crédito que lhe é dado. Depois de uma explosiva Spacemen, o estádio do Restelo entoou ainda os "oh-oh"'s da canção, aplaudindo e uivando. E Brandon Flowers, de sorriso nos lábios, prepara a maior patetice do concerto: Spacemen iria ser tocada outra vez. Embora alguns (como eu) tenham ficado atónitos com a repetição de uma canção "menor" da banda, a maior parte do público ficou surpreendemente feliz com esta decisão. São escolhas, mas foi uma escolha bastante infeliz, já que iria custar ao alinhamento a magistral Bones.
Depois de mais uma canção nova, A Dustland Fairytale, os The Killers recuaram na sua discografia, trazendo ao palco Mr. Brightside, Read My Mind e All These Things I've Done. A primeira foi recebida de forma explosiva por muita gente, não fosse a canção uma das pérolas do albúm debutante da banda. Read My Mind, numa roupagem mais suave que a sua versão em Sam's Town, teve algum impacto, mas não o suficiente para suportar a sua genialidade. Ainda assim, proporcionou um momento bastante emotivo para uma jovem que, sentada aos ombros de um amigo, levantava um cartaz que dizia "Can You Really Read My Mind?". A meio da canção, Brandon sorriu-lhe e disse "Yes, I can really read your mind!". Do outro lado, um compreensivo grito histérico satisfez a vista e o coração daqueles que rodeavam a rapariga. O concerto não tinha acabado, mas seria de certeza para recordar.
All These Things I've Done foi muito bem recebida, em especial no segmento de "I've got soul but I'm not a soldier", que os milhares presentes no recinto fizeram questão de acompanhar. No final da música, a banda sai de palco sem uma despedida, sinal claríssimo de um encore. O público vai continuando a cantoria da noite anterior e repete tenebrosamente os "oh-oh"'s de Spacemen. Uns minutinhos depois, a banda regressa: baterista atrás, do lado direito; baixista à frente, lado direito; Bradon ao centro, embora com variações para a esquerda ou para a direita constante a agitação do público; o guitarrista, do lado esquerdo, com uma excelente presença, chegando a subir para as colunas para dar uma espécie de solo com um sincero sorriso nos lábios, sob os aplausos dos que estavam por lá perto. À entrada do encore, o suor era mais que muito, a pizza por baixo dos meus pés estava cada vez mais escorregadia, os líquidos faziam falta, mas o ânimo, esse estava em alta.
Infelizmente, não tardou a descer. O tema inicial do encore foi o pateta I Can't Stay, num ritmo tropical que deixou o os fãs mais vulneráveis ao vento que se fazia sentir. Apercebendo-se de que o resultado não fora o melhor, depressa passam para Jenny Was a Friend Of Mine, bastante mais bem recebida. No final desta penúltima canção, ouvia-se frequentemente "Bones! Bones!", mas o tema que acabou por encerrar o concerto foi o não menos brilhante When You Were Young, a faixa mais bem recebida de Sam's Town. A loucura misturava-se com um leve sentimento de tristeza, pois o concerto estava na sua recta final. Os The Killers despediam-se da melhor forma de Lisboa, com a promessa de voltarem em muito menos tempo do que o que os portugueses esperaram para os ver pela primeira vez.
A banda sai, as luzes apagam-se, o público começa a mexer. O Super Bock Super Rock chegava ao fim, num dos cartazes mais atribulados da história do festival. Os cabeça de cartaz do acto lisboeta deram o melhor concerto, um dos melhores do ano em Portugal. Mas apesar de terem passado por grandes êxitos, de terem incitado ao movimento e de terem presenteado o público com explosões e fogo de artifício, fica-se com a sensação que um concerto de The Killers poderia ter sido muito mais, e não o foi. Fica um vazio inexplicável para preencher aquando de um concerto em nome próprio em terras lusas.

Sobre o resto da noite, muito mais haveria a falar: t-shits, dores gástricas, gripe A, viagens a pé, viagens de táxi, tentativas de homicídio, lenhadores, e muito mais. Mas embora me façam recordar de um dos melhores dias da minha vida, não são coisas dignas de aparecerem neste blog e saber da vida alheia nunca ficou bem a ninguém.
Fotos: fotógrafo oficial da banda

domingo, 19 de julho de 2009

Super Bock Super Rock Lisboa - Episódio I

O estádio do Restelo acolheu ontem, dia 18 de Julho, muito mais do que a primeira vinda a Portugal de The Killers e Duffy. Acolheu a minha primeira ida a um festival, o que por si só, já dá algum prestígio ao evento por quem ninguém dava nada e que foi alvo de chacota desde o dia em cartaz foi divulgado. Depois de um primeiro acto desastroso no estádio do Bessa com o cancelamento de Depeche Mode e com um cartaz pobre em alternativas, o Super Bock Super Rock redimiu-se por terras alfacinhas, onde apesar dos agoiros, conseguiu dar um bom espetáculo.

A estória de Brandy

Chegado já mais de uma hora depois da abertura das portas e com a despedida distante dos The Walkmen lá ao longe no palco, o primeiro concerto integral que assisti foi o de Brandy Carlisle. Este nome, já bastante batido por terras lusas (ela própria afirmou ser a sua quarta vez em Portugal), foi recebido por pouca gente, já que muitos repousavam no chão à espera de algo que lhes agradasse mais ou se entregavam ao gáudio de tentar entrar no Mini-Cooper com mais vinte pessoas ou ao tentar uma postura de Hit Artist numa tenda de karaoke.
Com apenas uma música a conseguir entrar nos tops portugueses, estava claro que para além de The Story, Brandy não iria arrancar ovações de mais nenhuma das suas canções. Apostar em covers era o mais sensato, e assim aconteceu. Com uma Creep adaptada ao seu estilo de voz (e a anos-luz de Thom Yorke e companhia), conseguiu algum coro e aplausos mais fortes. Seguiu-se a sua preciosidade, The Story, a fazer cantar o ainda disperso Restelo. Depois de uma tentativa de interagir com o público (o maior para o qual a artista tocou, confidenciou), seguiu-se o country de Johny Cash para fazer dançar e levantar o rabo a alguns preguiçosos que ainda se mantinham prostrados no chão. E como o estômago já parecia colar-se às costas, deixei Brandy para trás para ir para uma interminável fila de uma banca de comida israelita. Um cheiro a carne assada e molho subia pelo ar, enchendo-me os pulmões de júbilo; ao longe, Brandy entoava "Hallelujah", versão de Leonard Cohen. Era o fim do concerto, e tudo parecia fazer sentido.


Os suecos dão-nos fogo

A saída para jantar custou-me o lugar com uma visiblidade bastante aceitável, mas ver o palco não alimenta ninguém. Depois de um kebab de frango (que cheirava muito melhor do que sabia), lá ocupei um lugar para ver Mando Diao, que me cativaram há uns meses atrás com Dance With Somebody, a sua música mais conhecida do grande público. Pela pequena multidão que já se amontoava junto do palco, aqui e ali surgiam já alguns fãs da banda, que deliravam tudo o das colunas saía. O que os Mando Diao proporcionaram foi um fim de tarde electrizante, cheio de energia e boa disposição. Apesar de ser a sua segunda vez em Portugal, foram tratados como estreantes, provocando umas pequenas amostras de moches aquando das canções mais frenéticas.
Das vozes femininas ouvia-se frequentemente "ai que pão", "ele é tão giro" e outros comentários carregados de hormonas em êxtase, mas depressa se desvanceram com uma parte mais acústica do concerto. E se há muito se via um cartaz junto à grade dizendo "Remember M. Jackson", os Mando Diao fizeram questão de o lembrar, ao homem que "viverá para sempre, mesmo quando o seu coração pára". Foi um belo momento, não tão emocionante quanto a ocasião pedia, mas as homenagens ao rei da pop não se ficariam por aqui.
Até ao final do concerto, a energia voltou e os saltos também: Give Me Fire, Gloria e Dance With Somebody fizeram Lissabon feliz e bastante satisfeita com a prestação destes quase-desconhecidos.
E numa nota pessoal, ir jantar até me fez bem, a transição do lado direito para o lado esquerdo do palco traduziu-se numa melhor visibilidade para este metro e oitenta e tal de gente, bem pertinho das grades. Um bom presságio para os cabeças de cartaz.

Piedade!

O tempo de espera pelo concerto da Duffy foi longo o suficiente para que o estádio do Restelo se compusesse melhor. Junto ao palco já se estava mais apertado, as bandoletes verdes brilhantes povoavam os crânios com maior frequência, o cheiro a suor era um pouco mais intenso. A ambientar a espera, ora anúncios ora música da RFM, que não vingou junto do público, à excepção de I Was Born To Love You, dos meus predilectos Queen, que sempre conseguiram que um ténue coro se ouvisse na noite de Belém. O vento, que os metereologistas prometiam ser forte, não se fazia sentir, mas o ar sentia-se que estava embebido num incomensurável receio do que estava para vir. O calor, esse era forte, mas em breve o público do Restelo se apresentaria frio, gelado.
A entrada apoteótica de Duffy só o foi junto da sua banda. Fora alguns apupos a umas pernas deliciosamente despidas, a galesa não recebeu um bom feedback dos portugueses (e espanhóis, muitos espanhóis). O ruído da primeira música começou logo a puxar lágrimas áqueles que sabiam que o concerto estava programado para uma hora e meia.
Depois de tentar o português de forma mais ou menos satisfatória, Duffy embarcou numa viagem pelo seu galardoado Rockferry. As músicas eram-me completamente desconhecidas e só me aumentavam as dores musculares que adquirira no concerto anterior. Poucos eram os que conseguiam usufruir da presença da dona dos olhos mais bonitos que passaram por aquele palco. Com Rain On Your Parade sentiu-se um pouco mais de animação, mas nada de extraordinário. Só quando Warrick Avenue surgiu na sua voz é que se sentiu que afinal havia gente atenta ao concerto. Por mero gozo (o meu caso) ou por gosto pessoal, o público cantou com Duffy este incontornável single das nossas rádios nacionais. Braços no ar, sorrisos nos lábios: de facto, as aparências iludem, o que a maior parte do público implorava era por piedade. Chegou a ouvir-se "só mais uma" a meio do concerto.
No entanto, ainda foram umas quatro músicas antes do grande final, a tão desejada Mercy, essa sim, capaz de fazer dançar o maior rocker do recinto, de certo contagiado com o espírito galhofeiro que se fazia sentir. "Vamos dançar?", pedia ela. Com certeza; movimentos da década de 70 e simples abanar de corpos faziam mexer os milhares de pessoas que esperavam ansiosas pelos The Killers e que sofriam que nem Cristo na cruz ao ouvir esta mal-amada artista. Mercy marcou o final do concerto, meia hora antes do previsto. E apesar de muitos aplausos se ouvirem, não foi bem graças ao concerto, onde Duffy até mostrou uns dotes vocais jeitosos, mas sim ao alívio de ter acabado. É considerado de forma quase unânime como o pior do festival, mas quero acreditar que podia ter sido pior.

A espera pelos The Killers acabou por ser a maior de todas. Com a forte pressão de trás, os empurrões multiplicavam-se e os mais baixinhos iam soltando lamúrios vãos. A música da RFM era sempre a mesma, os preparativos para o concerto demoravam demasiado tempo até que se fez silêncio no estádio. Nas publicidades da Super Bock junto ao palco, lia-se agora a palavra Thriller. Era de esperar: o tema com o mesmo nome de Michael Jackson soou pelo recinto acompanhado de aplausos e "ooooh"'s de entusiasmo. Publicidades à cerveja do festival apareciam nos ecrans com nomes de músicas do "Wacko Jacko", falecido no passado dia 25. Também Smooth Criminal se fez ouvir e depois pôde ler-se o que já se esperava e o que era merecido: o Super Bock Super Rock prestava homenagem ao rei da pop. A iniciativa colheu aplausos de um muito bem composto estádio. Foi um dos mais belos momentos da noite. Daí a minutos, começaria um dos melhores concertos em Portugal.

(continua...)

Fotos de: Rita Carmo/Espanta Espíritos

domingo, 5 de julho de 2009

A Metamorfose de Yann Tiersen


Para começar, porque não ver um video de uma actuação ao vivo de Yann Tiersen, com a música Rue des Cascades, do albúm homónimo de 96?



Era isto que muitos esperavam quando compraram um bilhete para o concerto de Yann Tiersen no CAE da Figueira da Foz. Mas o que encontraram foi isto:



Este último vídeo, uma compilação de vários momentos num concerto na Catalunha no passado dia 1, é quase como um resumo do que se passou ontem, dia 4, no Grande Auditório do Centro de Artes e Espetáculos. A calma, o classicismo, a melancolia típicas de Yann Tiersen estiveram extraordináriamente tímidas num concerto que primou pelo frenesim de luzes e ruídos.
Em quase duas horas de concerto, não houve espaços para valsas de Amélie nem verões de 78. Os temas mais conhecidos do artista francês, famoso principalmente pelas bandas sonoras de "O Fabuloso Destino de Amélie" e "Adeus, Lenine!", ficaram de fora de um alinhamento que desde o início prometia ser diferente. O acordeão, nem vê-lo; o violino, escondido entre a parafernália do palco; o piano substituído por dois sintetizadores. Bastou que Yann, depois de um tímido "Good Evening", começasse a tocar a sua guitarra elétrica para que se vissem bastantes narizes a torcerem-se por entre um esgotadíssimo auditório. Canção após canção, o francês, acompanhado por uma banda de luxo, não largava a guitarra e por entre os aplausos da maioria do público presente, era possível ver aborrecidos braços cruzados e semblantes de penoso enfado.
Apesar de o concerto se debruçar sobre as músicas do novo albúm de Tiersen, ele acabou por não resistir a pegar no violino e tocar "Sur le Fil", que arrancou o júbilo da plateia. Ainda assim, momentos houve em que os sintetizadores se apresentavam ácidos ao máximo, em que a guitarra loucamente gemia, em que a bateria se apresentava embriagada e o baixo prestes a partir-se na mão do seu intérprete, tudo sob uma luz febril e intermitente e com Yann deitado no chão a arrancar fortíssimos agudos da sua guitarra. Foram muito provavelmente estes momentos que fizeram com que vergonhosamente algumas pessoas abandonassem os seus lugares (incluíndo de primeira fila!) e saíssem da sala.
Yann Tiersen apresentou-se à Figueira da Foz como um artista que não aceita submeter-se a um estilo musical. Será estranho imaginar que o mesmo homem que compôs a belíssima "Comptine d'Un Autre Été" é capaz de escrever coisas não menos belas como "I know you know we're all falling into a deep oblivion/ I know you know we're all falling into a neverending mess/(...)Please let's get undressed, /we need to live it and sing: /fuck me, fuck me, fuck me/you make me come again,/ you make me come again/(...)you make me love again .". No entanto, esta metamorfose para o rock, embora não tão bem aceite pelo público, pareceu-me a mim bem sucedida e mal posso esperar pelo próximo albúm do francês.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

As Mortes em Veneza


Obra-prima do escritor alemão Thomas Mann, "A Morte em Veneza" tornou-se um dos livros mais populares do século XX, apesar do tema um tanto controverso. Esta novela fala-nos da viagem de um escritor consagrado, de nome Aschenbach, a Veneza e do fascínio que dele se apodera por um jovem polaco. O quinquagenário alemão vê o adolescente pela primeira vez na sala de refeições do hotel em que os dois estão hospedados, e desde logo se deixa enfeitiçar pela sua beleza extraordinária, interessando-se de forma duvidosa por esta personagem. Mas depressa este interesse se torna numa autêntica obsessão, fazendo com que Aschenbach siga Tadzio por todo o lado, esquecendo a sua condição de homem respeitável e ignorando vários indícios de uma iminente tragédia: a sua saúde frágil, o denso nevoeiro vindo de África, o intenso cheiro a desinfectante pelas ruas de Veneza. No final, esta busca louca e cega pela beleza de Tadzio termina tragicamente, da maneira que o título sugere.
Apesar de se mostrar como uma simples história de um amor homossexual, "A Morte em Veneza" é muito mais do que a vista alcança. Apesar de alguns aspectos referentes à mitologia, que tornam esta novela muito mais interessante, me terem passado ao lado, algo que se poderá espremer das páginas deste livro é uma atracção não só física (até porque as personagens nunca se falam ou tocam), não só sexual (embora exista libido) mas sim uma atracção por um ideal; mais do que desejar Tadzio, Aschenbach deseja a sua incomensurável beleza, deseja o belo que lhe parece tão inatingível. E por isso este livro é tão apreciado, pelo seu debate filosófico e ético, que muita vezes me escapou entre o vocabulário pesado, embora rico, de Thomas Mann. O escritor, que sabemos agora ter sido homossexual, compõe uma novela um tanto maçuda, de palavras sonolentas e discursos bocejadores, o que me fez demorar mais tempo do que devia neste livro.
Do livro de 1912, surge o filme em 1971, uma materialização da novela que surge bem mais agradável, apesar de ser ainda bastante pesada. Fora a mudança da profissão de Aschenbach de escritor para compositor, poucas são as mudanças feitas na adaptação ao cinema da obra-alemã. A música é elemento fortíssimo, a realização é irrepreensível, assim como o elenco: Dick Bogarde é o rosto do desespero e Björn Andrésen, como Tadzio, foi considerado como o mais belo rapaz do mundo. Com menos líbido e mais filosofia, "A Morte em Veneza" é um clássico ora subvalorizado por uns, ora sobrevalorizado por outros. Fiquemo-nos num bom filme, que lida com um tema deveras estranho como se fosse algo tão natural como uma paixão exacerbada do mesmo romantismo de "Amor de Perdição".