A vantagem de ver um concerto em cima de uma pizza
A montagem de palco dos The Killers quase que conseguiu superar o tempo de espera pela Duffy. O público fervia de excitação enquanto que os técnicos de palco colocavam pianos espelhados, plantinhas em vasos, um sintetizador com a forma de uma luminosa letra K, tudo muito Day&Age. Medo. Mas os alinhamentos de outros concertos disponibilizados na Internet descansavam os que, como eu, temiam um concerto baseado neste último albúm. Pouco tempo depois, os The Killers iriam cumprir esses alinhamentos e aliviar muitos nervos.
Numa completa escuridão e sob um burburinho gigantesco, a banda de Las Vegas entrou triunfante no palco, perante um explosivo entusiasmo do estádio do Restelo. Sem mais perdas de tempo, Human abre o concerto. Por muito que se desgoste deste último trabalho da banda de Brandon Flowers, Human, à semelhança das músicas de Duffy, é uma música inevitável pela sua massiva transmissão radiofónica. Por isso, não é difícil explicar a alegria e os saltos na interpretação de um dos singles mais fraquinhos da curta história dos The Killers. A este hit seguiu-se outra canção de Day&Age, This Is Your Life. Ainda que com me

nos animação, esta música não fez esmorecer o público, que transformava a zona perto da grade no Inferno na Terra. Depois desta dupla introdução do novo albúm e de umas palavras em português, um dos momentos da noite inicia-se num completo frenesim: empurrões, gritos, braços no ar antecedem a Somebody Told Me, a verdadeira culpada pelas minhas dores musculares que ainda dois dias depois me dão trabalho. A representar Hot Fuss em grande estilo, a provavelmente mais popular canção dos americanos fez o Restelo capitular perante o gigantesco poder da banda.
E por razões desconhecidas, as músicas de Sam's Town (o melhor albúm da banda, na minha opinião) não tiveram o impacto esperado no público. Alguns saltaram e cantaram com Brandon, que se ia balançando pelo palco já depois de tirar as plumas do seu casaco, mas For Reasons Unknown (um hino!) passou ao lado de muita gente. Pelo contrário, desenxabida The World We Live In colheu cânticos e saltinhos de quase toda a gente. Ficava provado que Day&Age foi o albúm que aproximou os The Killers do grande público e que levou muitas pessoas a irem ao Restelo naquela noite.
Enquanto tocava outra canção do registo mais recente da discografia da banda, Joy Ride, apercebi-me que graças aos empurrões e saltos, me situava agora sobre uma superfície esponjosa e mole. Vomitado? É bem provável, e foi a hipótese mais aceite pelas minhas companhias. Enquanto o povo lisboeta não se mexia muito, tentei ver com a luz do telemóvel o que se encontrava debaixo dos meus pés: era uma pizza. Quase inteira, virada para baixo. Não pude deixar de escapar um pensamento profundo: "ESTOU A VER THE KILLERS EM CIMA DE UMA PIZZA, A MINHA VIDA GANHOU SENTIDO". Entretanto, Duffy e uma das suas coristas sentavam-se junto ao palco a ver o espetáculo que não deram e a recepção que não tiveram, mas sem tirar o sorriso dos lábios.
Pelo palco foram passando Shadowplay (cover dos Joy Division), Bling (Confession of a King), Smile Like You Mean It, mas o público, apesar de ainda extasiado por ter à frente uma das melhores bandas no panorama musical actual, não reagia da forma que as canções pediam. Por outro lado, reagiu exageradamente a um single que não merece metade do crédito que lhe é dado. Depois de uma explosiva Spacemen, o estádio do Restelo entoou ainda os "oh-oh"'s da canção, aplaudindo e uiva

ndo. E Brandon Flowers, de sorriso nos lábios, prepara a maior patetice do concerto: Spacemen iria ser tocada outra vez. Embora alguns (como eu) tenham ficado atónitos com a repetição de uma canção "menor" da banda, a maior parte do público ficou surpreendemente feliz com esta decisão. São escolhas, mas foi uma escolha bastante infeliz, já que iria custar ao alinhamento a magistral Bones.
Depois de mais uma canção nova, A Dustland Fairytale, os The Killers recuaram na sua discografia, trazendo ao palco Mr. Brightside, Read My Mind e All These Things I've Done. A primeira foi recebida de forma explosiva por muita gente, não fosse a canção uma das pérolas do albúm debutante da banda. Read My Mind, numa roupagem mais suave que a sua versão em Sam's Town, teve algum impacto, mas não o suficiente para suportar a sua genialidade. Ainda assim, proporcionou um momento bastante emotivo para uma jovem que, sentada aos ombros de um amigo, levantava um cartaz que dizia "Can You Really Read My Mind?". A meio da canção, Brandon sorriu-lhe e disse "Yes, I can really read your mind!". Do outro lado, um compreensivo grito histérico satisfez a vista e o coração daqueles que rodeavam a rapariga. O concerto não tinha acabado, mas seria de certeza para recordar.
All These Things I've Done foi muito bem recebida, em especial no segmento de "I've got soul but I'm not a soldier", que os milhares presentes no recinto fizeram questão de acompanhar. No final da música, a banda sai de palco sem uma despedida, sinal claríssimo de um encore. O público vai continuando a cantoria da noite anterior e repete tenebrosamente os "oh-oh"'s de Spacemen. Uns minutinhos depois, a banda regressa: baterista atrás, do lado direito; baixista à frente, lado direito; Bradon ao centro, embora com variações para a esquerda ou para a direita constante a agitação do público; o gui

tarrista, do lado esquerdo, com uma excelente presença, chegando a subir para as colunas para dar uma espécie de solo com um sincero sorriso nos lábios, sob os aplausos dos que estavam por lá perto. À entrada do encore, o suor era mais que muito, a pizza por baixo dos meus pés estava cada vez mais escorregadia, os líquidos faziam falta, mas o ânimo, esse estava em alta.
Infelizmente, não tardou a descer. O tema inicial do encore foi o pateta I Can't Stay, num ritmo tropical que deixou o os fãs mais vulneráveis ao vento que se fazia sentir. Apercebendo-se de que o resultado não fora o melhor, depressa passam para Jenny Was a Friend Of Mine, bastante mais bem recebida. No final desta penúltima canção, ouvia-se frequentemente "Bones! Bones!", mas o tema que acabou por encerrar o concerto foi o não menos brilhante When You Were Young, a faixa mais bem recebida de Sam's Town. A loucura misturava-se com um leve sentimento de tristeza, pois o concerto estava na sua recta final. Os The Killers despediam-se da melhor forma de Lisboa, com a promessa de voltarem em muito menos tempo do que o que os portugueses esperaram para os ver pela primeira vez.
A banda sai, as luzes apagam-se, o público começa a mexer. O Super Bock Super Rock chegava ao fim, num dos cartazes mais atribulados da história do festival. Os cabeça de cartaz do acto lisboeta deram o melhor concerto, um dos melhores do ano em Portugal. Mas apesar de terem passado por grandes êxitos, de terem incitado ao movimento e de terem presenteado o público com explosões e fogo de artifício, fica-se com a sensação que um concerto de The Killers poderia ter sido muito mais, e não o foi. Fica um vazio inexplicável para preencher aquando de um concerto em nome próprio em terras lusas.
Sobre o resto da noite, muito mais haveria a falar: t-shits, dores gástricas, gripe A, viagens a pé, viagens de táxi, tentativas de homicídio, lenhadores, e muito mais. Mas embora me façam recordar de um dos melhores dias da minha vida, não são coisas dignas de aparecerem neste blog e saber da vida alheia nunca ficou bem a ninguém.
Fotos: fotógrafo oficial da banda