Por alguma razão, a escrita de José Saramago assusta muito boa gente por este Portugal. Que se leia antes de falar, portanto, pois mesmo num romance menor, o autor mostra-nos porque merece o Nobel que tem em casa.
Ficha técnica
Título original: A Caverna
Ano: 2000
Autor: José Saramago
Romance
A história é a de uma família de oleiros que vê o seu negócio arruinado graças a um gigantesco Centro (comercial, habitacional...quem sabe?), que deixa de lhes comprar produtos, derivado do desinteresse dos consumidores. É então feito um esforço por Cipriano Algor, o oleiro, por Marta, sua filha, por Marçal, seu genro e guarda no Centro, sem esquecer o cão Achado para dar a volta por cima, para resistir à hipótese de extinção da sua olaria. No final, além de uma história de sobrevivência, fica uma profunda e dura reflexão sobre o mundo em que hoje vivemos, comparando-o com algo feito há alguns milénios atrás.
Embora o enredo não seja dos mais interessantes concebidos pelo autor, esta deve ser uma leitura obrigatória para quem acompanha o trabalho de José Saramago, mas não só. Ainda que longe do frenetismo de O Homem Duplicado ou da dureza estética de Ensaio Sobre a Cegueira, A Caverna é uma história belíssimamente contada, com uma escrita deliciosa e injustamente odiada. Para uma melhor compreensão deste livro, recomenda-se a pesquisa do mito da caverna, escrito por Platão, que embora não parecendo, tudo tem a ver com a história deste livro e com o nosso mundo de todos os dias. Saramago reflecte sobre a desumanização deste "brave new world" e sobre a condição daqueles que são deixados para trás pela galopante modernização do nosso planeta.
Em 350 páginas, tudo cabe: amor, humor, acção, reflexão e melancolia, muita melancolia. Tudo isto com meia dúzia de pontos finais, como é claro.
"Assistimos a um mundo em extinção. O único lugar seguro são os shoppings que, curiosamente, não têm janelas. E um lugar sem janelas é uma caverna" - José Saramago
Classificação: 8/10

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