O estádio do Restelo acolheu ontem, dia 18 de Julho, muito mais do que a primeira vinda a Portugal de The Killers e Duffy. Acolheu a minha primeira ida a um festival, o que por si só, já dá algum prestígio ao evento por quem ninguém dava nada e que foi alvo de chacota desde o dia em cartaz foi divulgado. Depois de um primeiro acto desastroso no estádio do Bessa com o cancelamento de Depeche Mode e com um cartaz pobre em alternativas, o Super Bock Super Rock redimiu-se por terras alfacinhas, onde apesar dos agoiros, conseguiu dar um bom espetáculo.
A estória de Brandy
Chegado já mais de uma hora depois da abertura das portas e com a despedida distante dos The Walkmen lá ao longe no palco, o primeiro concerto integral que assisti foi o de Brandy Carlisle. Este nome, já bastante batido por terras lusas (ela própria afirmou ser a sua quarta vez em Portugal), foi recebido por pouca gente, já que muitos repousavam no chão à espera de algo que lhes agradasse mais ou se entregavam ao gáudio de tentar entrar no Mini-Cooper com mais vinte pessoas ou ao tentar uma postura de Hit Artist numa tenda de karaoke. 
Com apenas uma música a conseguir entrar nos tops portugueses, estava claro que para além de The Story, Brandy não iria arrancar ovações de mais nenhuma das suas canções. Apostar em covers era o mais sensato, e assim aconteceu. Com uma Creep adaptada ao seu estilo de voz (e a anos-luz de Thom Yorke e companhia), conseguiu algum coro e aplausos mais fortes. Seguiu-se a sua preciosidade, The Story, a fazer cantar o ainda disperso Restelo. Depois de uma tentativa de interagir com o público (o maior para o qual a artista tocou, confidenciou), seguiu-se o country de Johny Cash para fazer dançar e levantar o rabo a alguns preguiçosos que ainda se mantinham prostrados no chão. E como o estômago já parecia colar-se às costas, deixei Brandy para trás para ir para uma interminável fila de uma banca de comida israelita. Um cheiro a carne assada e molho subia pelo ar, enchendo-me os pulmões de júbilo; ao longe, Brandy entoava "Hallelujah", versão de Leonard Cohen. Era o fim do concerto, e tudo parecia fazer sentido.
Os suecos dão-nos fogo
A saída para jantar custou-me o lugar com uma visiblidade bastante aceitável, mas ver o palco não alimenta ninguém. Depois de um kebab de frango (que cheirava muito melhor do que sabia), lá ocupei um lugar para ver Mando Diao, que me cativaram há uns meses atrás com Dance With Somebody, a sua música mais conhecida do grande público. Pela pequena multidão que já se amontoava junto do palco, aqui e ali surgiam já alguns fãs da banda, que deliravam tudo o das colunas saía. O que os Mando Di
ao proporcionaram foi um fim de tarde electrizante, cheio de energia e boa disposição. Apesar de ser a sua segunda vez em Portugal, foram tratados como estreantes, provocando umas pequenas amostras de moches aquando das canções mais frenéticas.
Das vozes femininas ouvia-se frequentemente "ai que pão", "ele é tão giro" e outros comentários carregados de hormonas em êxtase, mas depressa se desvanceram com uma parte mais acústica do concerto. E se há muito se via um cartaz junto à grade dizendo "Remember M. Jackson", os Mando Diao fizeram questão de o lembrar, ao homem que "viverá para sempre, mesmo quando o seu coração pára". Foi um belo momento, não tão emocionante quanto a ocasião pedia, mas as homenagens ao rei da pop não se ficariam por aqui.
Até ao final do concerto, a energia voltou e os saltos também: Give Me Fire, Gloria e Dance With Somebody fizeram Lissabon feliz e bastante satisfeita com a prestação destes quase-desconhecidos.
E numa nota pessoal, ir jantar até me fez bem, a transição do lado direito para o lado esquerdo do palco traduziu-se numa melhor visibilidade para este metro e oitenta e tal de gente, bem pertinho das grades. Um bom presságio para os cabeças de cartaz.
Piedade!
O tempo de espera pelo concerto da Duffy foi longo o suficiente para que o estádio do Restelo se compusesse melhor. Junto ao palco já se estava mais apertado, as bandoletes verdes brilhantes povoavam os crânios com maior frequência, o cheiro a suor era um pouco mais intenso. A ambientar a espera, ora anúncios ora música da RFM, que não vingou junto do público, à excepção de I Was Born To Love You, dos meus predilectos Queen, que sempre conseguiram que um ténue coro se ouvisse na noite de Belém. O vento, que os metereologistas prometiam ser forte, não se fazia sentir, mas o ar sentia-se que estava embebido num incomensurável receio do que estava para vir. O calor, esse era forte, mas em breve o público do Restelo se apresentaria frio, gelado.
A entrada apoteótica de Duffy só o foi junto da sua banda. Fora alguns apupos a umas pernas deliciosamente despidas, a galesa não recebeu um bom feedback dos portugueses (e espanhóis, muitos espanhóis). O ruído da primeira música começou logo a puxar lágrimas áqueles que sabiam que o concerto estava programado para uma hora e meia.
Depois de tentar o português de forma mais ou menos satisfatória, Duffy embarcou numa viagem pelo seu galardoado Rockferry. As músicas eram-me completamente desconhecidas e só me aumentavam as dores musculares que adquirira no concerto anterior. Poucos eram os que
conseguiam usufruir da presença da dona dos olhos mais bonitos que passaram por aquele palco. Com Rain On Your Parade sentiu-se um pouco mais de animação, mas nada de extraordinário. Só quando Warrick Avenue surgiu na sua voz é que se sentiu que afinal havia gente atenta ao concerto. Por mero gozo (o meu caso) ou por gosto pessoal, o público cantou com Duffy este incontornável single das nossas rádios nacionais. Braços no ar, sorrisos nos lábios: de facto, as aparências iludem, o que a maior parte do público implorava era por piedade. Chegou a ouvir-se "só mais uma" a meio do concerto.
No entanto, ainda foram umas quatro músicas antes do grande final, a tão desejada Mercy, essa sim, capaz de fazer dançar o maior rocker do recinto, de certo contagiado com o espírito galhofeiro que se fazia sentir. "Vamos dançar?", pedia ela. Com certeza; movimentos da década de 70 e simples abanar de corpos faziam mexer os milhares de pessoas que esperavam ansiosas pelos The Killers e que sofriam que nem Cristo na cruz ao ouvir esta mal-amada artista. Mercy marcou o final do concerto, meia hora antes do previsto. E apesar de muitos aplausos se ouvirem, não foi bem graças ao concerto, onde Duffy até mostrou uns dotes vocais jeitosos, mas sim ao alívio de ter acabado. É considerado de forma quase unânime como o pior do festival, mas quero acreditar que podia ter sido pior.
A espera pelos The Killers acabou por ser a maior de todas. Com a forte pressão de trás, os empurrões multiplicavam-se e os mais baixinhos iam soltando lamúrios vãos. A música da RFM era sempre a mesma, os preparativos para o concerto demoravam demasiado tempo até que se fez silêncio no estádio. Nas publicidades da Super Bock junto ao palco, lia-se agora a palavra Thriller. Era de esperar: o tema com o mesmo nome de Michael Jackson soou pelo recinto acompanhado de aplausos e "ooooh"'s de entusiasmo. Publicidades à cerveja do festival apareciam nos ecrans com nomes de músicas do "Wacko Jacko", falecido no passado dia 25. Também Smooth Criminal se fez ouvir e depois pôde ler-se o que já se esperava e o que era merecido: o Super Bock Super Rock prestava homenagem ao rei da pop. A iniciativa colheu aplausos de um muito bem composto estádio. Foi um dos mais belos momentos da noite. Daí a minutos, começaria um dos melhores concertos em Portugal.
(continua...)
Fotos de: Rita Carmo/Espanta Espíritos
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