domingo, 5 de julho de 2009

A Metamorfose de Yann Tiersen


Para começar, porque não ver um video de uma actuação ao vivo de Yann Tiersen, com a música Rue des Cascades, do albúm homónimo de 96?



Era isto que muitos esperavam quando compraram um bilhete para o concerto de Yann Tiersen no CAE da Figueira da Foz. Mas o que encontraram foi isto:



Este último vídeo, uma compilação de vários momentos num concerto na Catalunha no passado dia 1, é quase como um resumo do que se passou ontem, dia 4, no Grande Auditório do Centro de Artes e Espetáculos. A calma, o classicismo, a melancolia típicas de Yann Tiersen estiveram extraordináriamente tímidas num concerto que primou pelo frenesim de luzes e ruídos.
Em quase duas horas de concerto, não houve espaços para valsas de Amélie nem verões de 78. Os temas mais conhecidos do artista francês, famoso principalmente pelas bandas sonoras de "O Fabuloso Destino de Amélie" e "Adeus, Lenine!", ficaram de fora de um alinhamento que desde o início prometia ser diferente. O acordeão, nem vê-lo; o violino, escondido entre a parafernália do palco; o piano substituído por dois sintetizadores. Bastou que Yann, depois de um tímido "Good Evening", começasse a tocar a sua guitarra elétrica para que se vissem bastantes narizes a torcerem-se por entre um esgotadíssimo auditório. Canção após canção, o francês, acompanhado por uma banda de luxo, não largava a guitarra e por entre os aplausos da maioria do público presente, era possível ver aborrecidos braços cruzados e semblantes de penoso enfado.
Apesar de o concerto se debruçar sobre as músicas do novo albúm de Tiersen, ele acabou por não resistir a pegar no violino e tocar "Sur le Fil", que arrancou o júbilo da plateia. Ainda assim, momentos houve em que os sintetizadores se apresentavam ácidos ao máximo, em que a guitarra loucamente gemia, em que a bateria se apresentava embriagada e o baixo prestes a partir-se na mão do seu intérprete, tudo sob uma luz febril e intermitente e com Yann deitado no chão a arrancar fortíssimos agudos da sua guitarra. Foram muito provavelmente estes momentos que fizeram com que vergonhosamente algumas pessoas abandonassem os seus lugares (incluíndo de primeira fila!) e saíssem da sala.
Yann Tiersen apresentou-se à Figueira da Foz como um artista que não aceita submeter-se a um estilo musical. Será estranho imaginar que o mesmo homem que compôs a belíssima "Comptine d'Un Autre Été" é capaz de escrever coisas não menos belas como "I know you know we're all falling into a deep oblivion/ I know you know we're all falling into a neverending mess/(...)Please let's get undressed, /we need to live it and sing: /fuck me, fuck me, fuck me/you make me come again,/ you make me come again/(...)you make me love again .". No entanto, esta metamorfose para o rock, embora não tão bem aceite pelo público, pareceu-me a mim bem sucedida e mal posso esperar pelo próximo albúm do francês.

2 comentários:

Nemesk disse...

Bom resumo do espectáculo de ontem à noite no CAE. Tal como muita gente não encontrei o que esperava...mas diria que fiquei positivamente surpreendido, rendi-me ao génio e vivi um concerto muito emotivo, que adorei. Triste foi a saída antecipada de algumas pessoas. Se já era fã, agora sou mais. Parabéns pelos blogs.

Ana Carolina disse...

Fico feliz que tenha gostado do espectáculo dado por este cantor e compositor francês, no passado dia 4 de Julho no CAE da Figueira da Foz.
Tive a sorte de estar igualmente presente, e partilho da sua opinião positiva relativamente ao evento.
Terei de ser sincera. Fui ao encontro de Yann com a enorme expectativa de me encontrar com Amélie Poulain e a sua valsa. De desfrutar de Le Moulin, Comptine d'un autre Été, La Dispute, entre outras músicas que compoem a espectacular banda sonora do filme em questão. E quem diz deste filme, diz de outros (como mencionou, Good Bye Lenine, que é um clássico no meu gosto pessoal).
Mas devo dizer que a actuação de Yann despertou em mim um enorme interesse, não obstante.
Eu conhecia esta faceta mais alternativa de Yann, e pode dizer-se que até gostava e estava preparada para este estilo musical, porque vi inúmeras actuações ao vivo no Youtube.
Provou, através da arte com o violino, com a guitarra, e com outro instrumento com que começou o concerto (não sei qual era, apenas que se tratava de sopro), e que logo me deixou encantada, a sua GRANDE versatilidade como figura musical.
Faltou o acordião, o piano (com o qual decerto me arrancaria umas lágrimas). Mas não faltou a classe, o sentimento, e a genial língua francesa que tanto agrada o seu público.
Foi diferente. Talvez isso tenha levado a que muitas pessoas, que procuravam uma nuance mais clássica, tenham abandonado o auditório antes de poderem perceber o grande espectáculo no qual tinham deixado de depositar interesse, atenção e sobretudo orgulho. Caprixo dos não fãs.
Triste.
Triste foi também a valsa d'amélie poulain "adaptada". Ficava melhor como estava. A cópia, utilizando o termo mais instantâneo possível, dificilmente consegue igualar a magia do original.
Mas nem isto conseguiu deitar a baixo a minha positivíssima opinião quanto a este concerto.
No fim, tive a oportunidade de estar e falar com ele. Disse-lhe: je t'aime.
Mas quem pode não amá-lo?