quinta-feira, 29 de outubro de 2009

David Fonseca numa intimidade acústica

Normalidade não é característica que assente bem a David Fonseca. O artista nacional que, cantando em inglês, mais vende no nosso país, tem sido acompanhado ao longo da sua carreira por um conjunto de excentricidades que o colocam num lugar especial no panorama musical português: realiza alguns dos seus vídeos, é fã e habitual utilizador das redes sociais Twitter e Facebook, vestiu-se de astronauta na sua última tour, declama a letra R de forma ruidosamente pesada e dá pequenos concertos nos locais mais inesperados. Na segunda-feira, dia 26, percorreu Lisboa com novas músicas no bolso e encantou. Agora, quando pouco falta para o lançamento oficial do novo albúm, Between Waves, David Fonseca corre Portugal de lés a lés com pequenos showcases, de forma a promover este seu último trabalho, embora de uma forma mais leve e intimista. Ontem, dia 28, foi a vez da Figueira da Foz.

O Pequeno Auditório do Centro de Artes e Espectáculos não estava cheio à hora prevista de início do concerto. Apenas pouco mais de metade dos lugares estavam ocupados, mas não se viam rostos de enfado e contrariedade que por vezes encontramos em grandes espetáculos. Em vez disso, só ligeiros sorrisos de expectativa e um burburinho no ar. No palco, apenas uma cadeira, uma guitarra acústica, uma pandeireta e um ecrã com a capa do novo álbum. Sem espaço para banda de apoio, David Fonseca prometia, mesmo ainda antes de estar em palco, algo de diferente das suas grandes produções ao vivo. Mal as luzes se apagaram, a figura alta e estreita do cantor atravessou o palco, com as já típicas All Star pretas e o blazer negro. Enquanto nos dava as boas vindas de uma forma bem-humorada, brincava nervosamente com as cordas da guitarra, até apresentar a primeira música da noite, Owner of Her Heart, um título de difícil pronunciação até mesmo para o David, que confessou vários engasgos com o nome da canção. Para o acompanhar, o ecrã fragmentou-se em pequenos compartimentos onde vários Davids Fonsecas tocavam variados instrumentos, como o piano, a bateria ou o xilofone, havendo ainda espaço para um quarteto de cordas. Depressa se passou para It’s Just A Dream, uma canção com uma estrutura diferente daquela que o artista costuma usar, inspirado em artistas como os Beatles ou Elvis Presley. Sem refrão, sem pontes, sem obedecer aos cânones da música pop actual, esta pequena anarquia estrutural revelou-se bem positiva, compondo uma das melhores músicas da noite.
Apesar da ausência da panóplia (ele adora esta palavra) habitual dos espectáculos ao vivo, o humor esteve bem mais presente; os espaços entre músicas mais se assemelhavam a stand-up comedy, com descrições hilariantes do seu processo de criação. Em jeito de introdução a Walk Away When You’re Winning, David explicou o porquê de nomes tão grandes para as suas músicas, assim como o uso de 4 para “for”, U para “you” e II no final: burocracias da Sociedade Portuguesa de Autores. No entanto, há razões para sorrir: “daqui a 500 anos, quando já estiver morto e enterrado, ninguém vai poder usar o título My Friends numa música sua. Esse título é meu, nem pensar!”. Esta boa disposição caiu bem no meio das músicas de um tom mais melancólico do que em outros registos, e foi recebida por um público bastante galhofeiro (talvez até demais), que exterminou toda a formalidade que ainda podia existir no showcase. Depois de mais uma música bem melódica e em que a sua poderosa voz brilhou fulgente, David Fonseca anuncia a última canção, com mais alguns efeitos especiais: U Know Who I Am usou a guitarra, a sua banda de Davids no ecrã, uma estranha bateria só de pé, e as vozes do público, que colaborava encantado noutra canção que encaixava perfeitamente no ambiente de uma amena noite de Outubro.
Assim se despediu, mas as luzes não se acenderam. Quem diria que também um showcase tem encore? David Fonseca voltou, colou a pandeireta ao pé com uma potente fita cola e interpretou o seu mais recente single, que já passa nas rádios nacionais. A Cry 4 Love soou ainda melhor num registo mais acústico, mas que não comprometeu a qualidade da versão original. Aplausos feitos, ficou a promessa feita de um novo álbum com muita qualidade e uma última faixa descrita como “kizombada psicadélica“. E fora do auditório, havia mais David Fonseca.
Como se de um velho amigo se tratasse, veio ter com o pequeno público que o aguardava junto à sua banquinha de merchandising, perguntar como tinha corrido, se tinham gostado, distribuindo autógrafos, sorrisos e piadas. E em exclusivo para o Espalha Factos e para o blog Para Acabar de Vez Com a Cultura (ou seja, em conversa comigo) declarou a sua paixão pelos espalhafatosos anos 80 e a sua adoração por artistas como Sabrina ou Samantha Fox. “Gosto de música“, disse-me, confirmando o seu vastíssimo leque de gostos musicais e negando-se a adoptar um só estilo. Além disso, houve ainda tempo na nossa curta conversa para conselhos musicais (”Não vens ao meu concerto porque no dia anterior tens Muse no Atlântico? Epá, aproveita. Muse é muito bom e ao vivo deve ser um espectáculo!”) e para algumas memórias de adolescente (”Quando trabalhava na rádio, gravava da TV os vídeos das canções e passava o som do VHS para cassetes, porque só assim é que nos chegava música. Nessa altura também vivia numa caverna.“)
O que fica deste showcase? Um forte desejo de ouvir Between Waves, a constatação da simpatia e humildade do artista e a certeza de que a normalidade assenta mesmo muito mal a David Fonseca.

2 comentários:

M disse...

excelente artigo

Roberto Simões disse...

Adoro David Fonseca! Está aqui um fã ;)

Cumps.
Roberto Simões
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