Obra prodigiosa da literatura portuguesa, um verdadeiro assombro vindo de um dos melhores representantes do Modernismo em Portugal.
Novela de Mário de Sá Carneiro (de quem tenciono falar mais detalhadamente daqui a uns tempos), foi publicada em 1914 pelo poeta, dois anos antes do seu suicídio. Escrita na primeira pessoa, esta obra tem como narrador Lúcio, um homem que depois de dez anos de prisão, escreve a sua confissão, ou melhor, a prova da sua inocência. Acusado do homicídio do seu amigo Ricardo de Loureiro, só depois de cumprir a pena este homem se defende, por achar que os seus argumentos eram inverosímeis. Assim, inicia a narração da sua história que começa em Paris, onde conhece Ricardo e onde descobre um leque de pormenores fantásticos sobre a sua personalidade, incluindo uma estranha característica: o seu amigo não consegue ter amigos, pois a sua amizade apenas se concretiza através de uma relação sexual. Apesar da grande proximidade entre os dois, Ricardo acaba por ir para Lisboa e lá casar, sem o comentar com Lúcio. Este decide ir também para Lisboa e é onde todo o drama se desenrola. A mulher de Ricardo, Marta, é uma mulher misteriosíssima, aparentemente sem passado, que acaba por se envolver com Lúcio, sem ter quaisquer cuidados em esconder isso de Ricardo...
Este é, sem qualquer dúvida, um dos meus livros favoritos. Absolutamente vertiginoso, incrivelmente depressivo, com algumas notas auto-biográficas, A Confissão de Lúcio é viciante e surpreendente, pelo seu final arrebatador que deixa qualquer leitor que se preze embasbacado. Embalada pelas características modernistas, é uma obra bastante erótica mas mergulhada numa imensa melancolia, típica de Sá-Carneiro. O amor, o fantástico e o suicídio, três das obsessões do autor, conjugam-se aqui de forma divinal, tendo sido esta novela considerada por José Régio como uma obra-prima da literatura portuguesa. Talvez a sua riqueza de vocabulário seja excessiva e isso poderá afastar potenciais leitores, mas a história deste livro sem a escrita de Sá-Carneiro não teria, com certeza, metade do esplendor.
Magistral, uma leitura imprescindível, por uma questão de bom gosto.
Classificação: 9/10

2 comentários:
Certamente te lembras do louco, do escultor, do caríssimo Raul. Foi o primeiro, e cravou-se bem forte.
Depos, foi o Mistério, perturbador Mistério...
Agora, o amigo Lúcio que está, de momento, repousado sobre a minha mesa de cabeceira. Já me apresentou a americana fulva e o Gervásio Vila-Nova. Acaba de conhecer Ricardo. Só li metade da tua crítica, para não ficar a saber mais do que devia.
Aliado a Vergílio Ferreira, Mário de Sá-Carneiro possui a capacidade de criar nós no estômago, tonturas e afins. E o mais curioso é a forma como aborda temas antagónicos e, ao mesmo tempo, tão similares (como a morte e a vida)estabelecendo em paralelo uma relação intrínseca entre amor e loucura, como se o verdadeiro amor se alcançasse pela loucura.
E de momento, finda a leitura, começo por dizer que já esperava este final, influências do último que por aqui passou (decerto conheces a história do Jekyll e do Hyde).
Não sei se reparaste no pormenos da presença de Raul Vilar e do amigo que escrevia umas linhas, incrível a perspicácia de Sá-Carneiro. Cheguei mesmo a levantar-me para confirmar se o Raul era o mesmo.
Loucura... é mais forte.
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